O Agente Secreto: os segredos da caracterização de Wagner Moura e elenco
A equipe de beleza do filme brasileiro indicado ao Oscar, liderada por Marisa Amenta, revela detalhes do backstage da produção
23/01/2026
O cinema nacional vive um momento histórico. Após o sucesso do último ano, o filme O Agente Secreto mantém o Brasil sob os holofotes com quatro indicações ao Oscar 2026. Entre os destaques da obra de Kleber Mendonça Filho, a caracterização, maquiagem e cabelo surgem como elementos essenciais para o realismo da trama, ambientada nos anos 70, em Recife.
Para reconstruir essa época com fidelidade, a produção contou com um grande time composto por maquiadores, cabeleireiros, peruqueiros, efeitistas e até um dentista. Conversamos com a equipe de caracterização, liderada pela argentina Marisa Amenta, para desvendar os bastidores da produção, dos visuais Wagner Moura e do elenco e trazer dicas valiosas para quem deseja ingressar no mercado de beleza para o audiovisual no Brasil.
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O Agente Secreto: os segredos da caracterização de Wagner Moura e elenco
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BLZ: Como é o processo de caracterização de um filme como O Agente Secreto? Quais são os passos antes de, de fato, iniciar a filmagem?
Equipe: “O processo de caracterização se desenrola em fases que levam tempo para serem maturadas. O primeiro contato entre diretor e caracterizadora é, sem dúvida, a chave central de tudo o que se desenvolve ao longo do projeto. É nesse momento que o diretor, junto ao diretor de arte e a figurinista, alinham ideias sobre o conceito do filme e toda a estética proposta.
Vale mencionar também a relação com a produção executiva do projeto, que, junto à caracterizadora, ajusta todos os detalhes, orçamento e demais demandas. Com isso em mente, a caracterizadora escolhe os profissionais que irão compor a equipe, avaliando as habilidades de cada um. Assim, todos desempenham seus papéis com excelência.
Cada projeto possui um formato único de equipe: há produções com maior demanda de efeitos especiais, que exigem mais maquiadores especializados nessa área; já projetos de época requerem profissionais que executem com precisão cabelos e maquiagens específicos do período.
A partir disso, inicia-se o período de pré-produção, quando acontecem a leitura do roteiro, a decupagem das cenas, os testes de maquiagem e cabelo, a confecção de próteses, a contratação de fornecedores e a montagem do kit que será utilizado durante as filmagens. Em “O Agente Secreto” nosso kit contava com 22 caixas pretas de material (sim, aquelas caixas de 60 litros).
Todos os testes são fotografados e alguns até filmados com a mesma câmera que será utilizada no filme, para garantir que tudo esteja de acordo com as expectativas e as propostas previamente definidas.”
BLZ: Onde vocês costumam buscar referências para criar?
“Cada projeto requer uma pesquisa dedicada. Em O Agente Secreto, por exemplo, dialogamos com filmes dos anos 60 e 70 e com referências como Retratos Fantasmas — documentário do próprio diretor, Kleber Mendonça. Além disso, houve uma pesquisa rica e detalhada do departamento de figurino, comandada por Rita Azevedo, que passou por álbuns de 120 famílias de Recife que viveram naquela época.
Também buscamos inspiração na arte, na literatura e no imaginário coletivo. As referências não são literais — elas sugerem um estado de espírito que traduzimos no ator por meio da maquiagem e do cabelo. É uma busca constante: estamos com o olhar atento ao mundo o tempo todo.”
BLZ: Em grandes produções, quais outros profissionais, além do time de make e cabelo, constroem a caracterização?
Equipe: “A caracterização é sempre um processo coletivo. Ela se constrói em diálogo com a direção de arte, o figurino, o elenco e o próprio roteiro. Durante a preparação dos atores e as provas de roupa, muitas ideias surgem e vão refinando os personagens.
O Agente Secreto tinha algumas demandas específicas sugeridas no roteiro que Kleber esperava ver na tela, como dentaduras falsas que simulavam dentes quebrados ou caídos, cicatrizes e ferimentos, perucas e pelos para a barba de Wagner.
Para as dentaduras, contamos com um dentista e um escultor (PE–SP). Para cicatrizes e machucados, dois efeitistas desenvolveram 28 tipos diferentes de próteses (SP–RJ). Tivemos ainda uma peruqueira (SP) e uma missão conjunta para trazer pelos da Itália ao Brasil para a barba de Wagner em uma das fases do filme, aplicados fio a fio.
Vale acrescentar a presença do nosso time extra nos dias de figuração: chegamos a trabalhar com até 14 maquiadores em dias de alta demanda.”
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BLZ: Como é o fluxo de trabalho no backstage de um filme? Existe uma divisão fixa entre as funções ou a equipe atua de forma híbrida?
Equipe: “Poderíamos responder ao início dessa pergunta com apenas uma palavra: intensa. O Agente Secreto exigiu muito do nosso poder de logística e administração, afinal, todos dias estávamos em locações diferentes, o que significava montar o camarim do zero diariamente.
Todo o nosso material era digitalizado em uma plataforma de organização, permitindo que a equipe encontrasse rapidamente os itens necessários. Além disso, existiam planilhas de orçamento, decupagem de cenas e número de figurantes — todo esse trabalho é realizado pela equipe de caracterização.
Neste filme, tínhamos funções preestabelecidas, mas, por se tratar de um time com grande versatilidade técnica, quando a pressão aumentava todos se ajudavam.”
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BLZ: Como foi o processo de construção visual do personagem do Wagner?
Equipe: “Como diz a canção, “o baiano tem o molho”… o molho da gentileza, da colaboração e do carinho pelo trabalho como um todo. Havia a intenção de “afastá-lo” visualmente de personagens anteriores, já que que, em projetos como Narcos, sua caracterização havia sido bastante marcante.
A principal referência para Marcelo foi o próprio Wagner: seu cabelo com textura natural, suas diferentes fases ao longo do filme, um twist com o naturalismo de Kleber e a riqueza dos olhares de Wagner.
Cada fase da caracterização teve seus desafios: quando Marcelo tinha cabelo curto e barba, a barba era milimetricamente preenchida, fio a fio, para parecer mais cheia. Já quando ele tinha cabelo longo e barba, utilizamos uma peruca de fios humanos para alongar os cabelos.
Inclusive, por conta das datas de filmagem, foi necessário retirar completamente a barba de Wagner para realizar sua última fase. Porém, nesse mesmo período, precisávamos gravar uma cena da primeira fase. Uma barba sob medida foi então reaplicada e, ao assistir ao filme, não se percebe qualquer diferença — a magia da caracterização.”
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BLZ: Quais são os seus visuais favoritos do filme?
Equipe: “Temos um carinho especial pelas divas dessa trama: Dona Sebastiana (Tânia Maria), com seus bobs; Elza (Maria Fernanda Cândido), com sua pele irretocável e cabelos ao vento; Fátima (Alice Carvalho), com seu olhar destruidor; e Elisângela (Geane Albuquerque), com um cabelo que parece ter CPF próprio.”
BLZ: O que não pode faltar no seu kit quando você vai para um set?
Equipe: “Esse kit se adapta de acordo com a produção, aliás, até que de acordo com cada diária. Produtos específicos para a manutenção de cada personagem precisam estar no set durante todo o tempo em que os atores estiverem em cena.
Alguns itens, porém, são constantes: colírios, hidratante labial, lenços secos e umedecidos, mini kit de efeitos especiais, mini kit de cabelo (spray e grampos) e mini kit de maquiagem de beleza, com corretivos, cotonetes, álcool e borrifador de água. Tudo isso é depositado em embalagens mini, dentro de bolsas transparentes, para facilitar a visualização rápida e permitir o transporte ao longo de 12 horas de trabalho.”
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BLZ: Para quem sonha em trabalhar com cinema e efeitos especiais no Brasil, qual é o primeiro passo? Quais dicas você daria?
Equipe: “Consumir cinema e arte é fundamental. Técnica é importante, mas repertório e leitura de imagem fazem toda a diferença no processo criativo. No set, muitas decisões precisam ser tomadas rapidamente, e essa bagagem é essencial.
Também acreditamos ser fundamental desenvolver versatilidade e trabalhar com equipes diferentes. Um ponto importante: você não precisa saber fazer tudo, mas é um diferencial dominar ao menos o básico de cada área — isso traz segurança e tranquilidade ao processo.
Alguns educadores e profissionais do cinema têm se dedicado a introduzir novos talentos às técnicas de maquiagem e cabelo para audiovisual, como Paula Vidal (SP) e Débora Saad (RJ). Existem muitas formas de fazer efeitos especiais, maquiagem de beleza, cabelo e perucaria. Entender a linguagem de cada filme e a estética de cada diretor é parte fundamental desse caminho.”
Conheça a equipe de caracterização de O Agente Secreto
Caracterização: Marisa Amenta
1º assistente de maquiagem: Zé Lucas
1ª assistente de caracterização: Ana Simiema
2º assistente de caracterização: Rodrigo Albuquerque
Cabeleireira: Vivi Lago
Assistente de cabeleireira: Nanda Leal
Equipe de apoio set
Anne Pires
Ju Mota
Nay Nogueira Vaz
Josi Cunha
Maria Caxiado
Renata Gueiros
Syonara Azevedo
Karoll Souza
Finaceiro
Laís Sampaio
Confecção de próteses
Próteses em silicone e dentaduras: Tomás Gravina
Cicatrizes: Mari Figueiredo
Prótese de pescoço: Natiê Cortez
Maquiador etapa Brasília: Enoque Abikan
Assistente de maquiagem: Camila Lee
